A história de um namoro trágico

A Revista Época em Parceria com o Portal G1 traz uma matéria interessantíssima sobre o sequestro que aconteceu em Santo André, e de como a história teve repercusão nacional e desfechos que jamais imaginariamos. Leia a matéria aqui no blog, ou no site original, o importante é compreender os vários aspectos desta história de vidas, e de como os muitos mistérios da vida acontecem sob os nossos olhos e nós continuamos perplexos.
A história de um namoro trágico
Lindemberg dera um soco nas costas de Eloá duas semanas antes de invadir seu apartamento e fazê-la refém. A mãe, Ana Cristina, quis dar queixa na polícia. Foragido da Justiça, o pai não deixou
FLAVIO MACHADO, ANDRES VERA E SOLANGE AZEVEDO. COM NELITO FERNANDES
fotomontagem sobre fotos de Robson Fernandes/reprodução/AE, reprodução, Rivaldo Gomes/Folha Imagem e Vinicius  Pereira/Diario de SP

“Lindemberg disse que, se eu não me afastasse de Eloá, mataria nós dois.” A ameaça foi feita ao estudante Paulo Henrique da Silva, de 15 anos, cerca de duas semanas antes do assassinato de Eloá Cristina Pimentel. Liso, o apelido de Lindemberg Alves, de 22 anos, cruzou o caminho de Paulo na periferia de Santo André. O adolescente foi surpreendido quando voltava para casa depois de uma partida de futebol. Liso parou sua moto, uma CG 125, e o intimidou. Ele sabia que Paulo e sua ex-namorada, amigos desde a 5ª série, estavam “ficando”. Esse foi o indício mais forte das intenções homicidas de Lindemberg. Ele não se conformava com as negativas de Eloá de reatar o namoro de quase três anos.

Lindemberg também procurou a ex-namorada na saída da escola. A conversa terminou em agressão. Ele deu um soco nas costas de Eloá, que se desequilibrou e caiu no meio da rua. Foi a primeira vez que a estudante contou às amigas e aos pais ter apanhado de Liso. A princípio, ninguém acreditou. A mãe de Eloá, Ana Cristina, a levou ao apartamento de Lindemberg para esclarecer a história. Ele negou ter batido na ex-namorada e classificou o episódio como uma briga que terminou com um empurrão.

Ana Cristina, a Tina, não se convenceu e cogitou ir à delegacia denunciar o rapaz por agressão. Recuou a pedido do marido. “Aldo disse que Lindemberg era uma boa pessoa e não conseguiria mais emprego com ficha suja”, afirma a agente de saúde Simone Morais Duarte, a amiga que hospedou a família de Eloá em casa durante o seqüestro.

Aldo, o pai de Eloá, considerava Lindemberg como um filho. Mas tinha outro motivo para se manter longe de delegacias. Em São Paulo, ele usava documentos falsos. Aldo José da Silva é um disfarce. O pai de Eloá se chama Everaldo Pereira dos Santos. Ex-policial militar, ele é suspeito de integrar um grupo de extermínio em Alagoas. Foragido desde 1993, foi reconhecido pela polícia alagoana ao ser flagrado pelas câmeras de televisão durante o seqüestro da filha. Segundo Simone, ele nunca contou aos filhos nem aos amigos que fez em Santo André sobre o passado. “Ninguém desconfiava que ele tinha sido policial, muito menos foragido da Justiça”.

Com o assassinato de Eloá e a repercussão nacional do caso, o passado de Everaldo ressurgiu. Com medo de ser preso – ou, segundo a família, morto em uma operação de “queima de arquivo” por conhecer detalhes de crimes ocorridos nos anos 1980 e início dos 1990 –, Everaldo nem sequer foi ao velório da filha. Até a tarde da sexta-feira, ele não havia se apresentado à polícia. E seu paradeiro permanecia desconhecido. Entre os crimes de que Everaldo é suspeito está o assassinato do então delegado Ricardo Lessa, irmão do ex-governador de Alagoas Ronaldo Lessa.

A Guarda Civil de Santo André calcula que pelo menos 36 mil pessoas estiveram no cemitério para acompanhar o velório e o enterro de Eloá. Poucos eram parentes e conhecidos da adolescente. A grande maioria foi ao cemitério porque acompanhou o seqüestro pela TV. “Há pessoas que entraram na fila para ver o corpo três vezes”, disse um dos PMs responsáveis por organizar a multidão. Mulheres erguiam crianças para que elas pudessem avistar Eloá. Jovens fotografavam a morta com o celular. Uma mulher, na faixa dos 50 anos, abriu os braços para o policial militar e reclamou do tempo escasso: “Nem deu para ver direito”.

Jorge Araújo

O ENTERRO
Além dos parentes e amigos, uma multidão que acompanhou o caso pela TV foi ao cemitério. O pai de Eloá, não

Durante o enterro, Ana Cristina, mãe de Eloá, causou comoção ao afirmar que perdoava o assassino da filha. “Eu perdôo Lindemberg, mas espero que a justiça seja feita.” Religiosa, ela disse ainda que a morte da filha foi a vontade de Deus. “Minha filha está feliz. Cumpriu sua missão na Terra, deu vida a outras pessoas”, afirmou, em alusão às sete pessoas que receberam os órgãos de Eloá. A família autorizou a doação de seus rins, pulmões, pâncreas, coração, fígado e córneas. Para a mãe, esse gesto conferiu um desfecho digno para uma história trágica.

“Eloá dizia que Lindemberg parecia um monstro, que não a deixava viver”
PAULO HENRIQUE, 15 anos, “ficante” da vítima

As brigas e reconciliações de Liso e Eloá eram freqüentes. Ciumento, Lindemberg sempre tomava a iniciativa de terminar o namoro. Passada a crise, o casal reatava. O ata e desata terminou no dia 11 de setembro, quando Liso rompeu pela última vez o relacionamento.

Eloá havia desrespeitado um trato do casal: ela não podia se relacionar com nenhum garoto em seu programa de troca de mensagens pela internet. Ela levou a sério o fim do namoro. Passou a evitar Lindemberg e parou de atender seus telefonemas. Ele entrou em desespero. Começou a segui-la por todos os lugares e ligar insistentemente. “Ela dizia que o Lindemberg parecia um monstro, que não a deixava viver. Lindemberg dizia que ia difamar Eloá no bairro”, afirma Paulo Henrique, o “ficante” de Eloá. Três dias depois da separação, Liso procurou uma amiga da ex. “Ele admitia que precisava deixá-la respirar. Prometia mudar. Mas continuava a persegui-la”, diz.

Segundo a amiga, que acompanhou passo a passo o fim do relacionamento, Lindemberg gostava de passear com sua moto pela Rua dos Dominicanos, em frente ao conjunto habitacional em que Eloá morava, nas noites de quinta-feira. Ali, depois que a feira livre da rua era desmontada, os jovens se reuniam para ouvir funk. “Ele sabia que a Eloá não gostava de vê-lo por lá, mas continuava freqüentando o lugar.” De vez em quando, as duas garotas se reuniam para estudar textos religiosos. De acordo com a amiga, poucos dias antes do seqüestro Eloá havia escolhido o seguinte tema para estudarem juntas: “Por que Deus permite o sofrimento?”.

A melancolia que tomou conta de Eloá no último mês em nada lembrava a vivacidade da garota sorridente que distribuía abraços aos amigos. Vaidosa, ela fazia chapinha para alisar o cabelo e não saía de casa sem pintar as unhas com esmalte vermelho. Adorava tirar fotos de si mesma – alguns de seus auto-retratos continuam a circular na internet. Considerada uma das meninas mais bonitas do bairro, dizia-se “gorda”, como muitas adolescentes de sua idade, mas não abria mão de seu doce preferido: pavê de Bis. Fizera planos de casar com Liso e ter filhos, mas só depois de cursar uma faculdade. Até a música da cerimônia já estava escolhida. Ela entraria na igreja ao som de “Emotion”, do grupo americano Destiny’s Child.

O romance do casal começou por iniciativa de Lindemberg, no início de 2006. Eloá e duas amigas passavam todos os dias em frente a uma lanchonete, indo para a escola. “Os meninos mexiam com a gente, e o Liso sempre ficava cantando a Eloá, mas ela não dava muita bola”, afirma outra amiga, de 15 anos. Liso ficou amigo de Douglas, irmão de Eloá, um ano mais novo que ela, para se aproximar da garota. Eles “ficaram” por cerca de dois meses sem o conhecimento da família. Ana Cristina, mãe da garota, ficou sabendo do caso quando o casal já andava de mãos dadas pelas ruas do bairro. Liso foi o primeiro namorado de Eloá. Ela tinha apenas 12 anos. Liso, 19. Os pais só aprovaram o relacionamento quando Lindemberg foi até a casa da família para pedir a menina em namoro. Todos viam Liso e Eloá como um casal apaixonado. Os dois costumavam freqüentar o Shopping ABC Plaza, em Santo André. Curtiam shows de pagode e axé. De vez em quando, tomavam açaí no Mr. Bean, um conhecido ponto de encontro da região.

Muitos achavam Eloá bonita demais para Lindemberg. Sua própria mãe costumava provocá-la. “Olha o Gianecchini dela”, dizia. Mas Eloá não admitia que falassem mal do namorado. Popular e comunicativa, ela defendia Liso, mais inseguro e introspectivo. Dois amigos de futebol contam que o rapaz nunca falava sobre seu relacionamento. Eles sabiam que Lindemberg era ciumento, mas nada fora do normal. Foi justamente do futebol que surgiu o apelido de Liso, que significa um bom jogador, difícil de marcar. Seus colegas de trabalho o classificavam como um “cara normal”, que não costumava trazer problemas pessoais para o serviço. Ele saía de casa por volta das 6 horas e voltava perto das 16 horas. Trabalhava em uma empresa que transporta produtos da marca Bombril. Nos fins de semana, usava sua moto para entregar pizzas.
Eloá havia escolhido um texto religioso para estudar: 
“Por que Deus permite o sofrimento?”

Logo no começo do namoro, a mãe de Eloá foi chamada à escola da filha. A direção queria saber se a família sabia do relacionamento da menina com um rapaz sete anos mais velho. Ana Cristina afirmou que ela e o marido aprovavam o namoro, que o rapaz era uma boa pessoa e que eles seguiam as regras impostas pelos pais de Eloá. Os namorados só saíam acompanhados por Douglas, irmão de Eloá, e voltavam para casa às 21 horas. Liso ganhou a confiança da família. A mãe de Eloá, freqüentadora da Congregação Cristã no Brasil, evangélica, tentava trazê-lo para sua igreja. Tina esperava que ele também convencesse Eloá a retornar para a igreja, que deixara de freqüentar nos últimos anos.

Rivaldo Gomes

SOBREVIVENTE
Nayara, ao sair do hospital. Atingida por um tiro, ela conta que Lindemberg falava ao celular pouco antes da invasão da polícia

As amigas de Eloá dizem que Lindemberg não sabia lidar com a popularidade da namorada. “Ele tinha baixa auto-estima e terminava o namoro para que ela o procurasse. Queria se sentir valorizado”, disse uma amiga. Para Susan Guggenheim, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, “Eloá tinha um significado simbólico para ele. Era uma conquista”. Susan afirma que as frases de Lindemberg, que disse ser “o cara” e o “príncipe do gueto”, podem ser interpretadas como sinais de auto-afirmação de quem se sentia desprezado. “Vendo a repercussão do caso, aparecendo na televisão, ele pode ter se sentido um príncipe”, diz Susan. O psicanalista João Batista Ferreira diz que o fato de Eloá ser objeto do desejo e dos cuidados de um rapaz de 19 anos pode ter criado uma ilusão de proteção. “Armou-se uma arapuca na qual os dois caíram. Ela, querendo ser protegida; ele, querendo assumir a figura protetora”, diz.

Em seu depoimento à Polícia Civil na semana passada, Nayara da Silva, de 15 anos, a amiga de Eloá que levou um tiro no rosto durante o seqüestro, afirma que o humor de Lindemberg oscilava durante as cem horas em que ele manteve a ex-namorada refém, boa parte do tempo sob a mira de um revólver. De acordo com o promotor Antonio Nobre Folgado, que acompanhou o depoimento de Nayara, o rapaz parecia bipolar. “Às vezes, ele se mostrava simpático. Às vezes, dava tapas na Eloá e a ameaçava de morte”, diz. A tensão do cativeiro afetou o comportamento da vítima. Segundo o relato de Nayara, um dia antes de ser assassinada Eloá teve um surto. Ela começou a quebrar tudo no apartamento. Para conter a ex-namorada, Lindemberg deu uma gravata e apontou a arma para a cabeça de Nayara. “Não agüento mais. Me mate, me mate”, gritava Eloá.

Segundo Nayara, momentos antes de o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) invadir o apartamento, na sexta-feira 17, Lindemberg conversava com alguém ao celular. Ao desligar, arrastou a mesa de jantar e bloqueou a porta da sala. Ela afirma não ter ouvido nenhum tiro dentro do cativeiro antes de a porta explodir.

Eloá e Nayara se conheceram no início do ano. A amizade das adolescentes se tornou mais forte quando Lindemberg e Eloá romperam. Antes, Eloá não ia à casa dos colegas nem para fazer trabalhos escolares. Só saía com Lindemberg. Os amigos de Eloá não eram amigos dele. Quando voltou ao cativeiro, dois dias depois de ter sido libertada, Lindemberg perguntou a Nayara por que ela havia prestado depoimento à polícia. Nayara respondeu que era praxe. Para Lindemberg, ela era a “conselheira sentimental” de Eloá. Durante o seqüestro, ele chegou a dizer a Eloá que Nayara, cujo apelido é Barbie, parecia uma boneca, não falava, não tinha vida e que, por isso, ele a mataria. Nayara ouviu a conversa dos dois enquanto fingia estar dormindo.

Envolvida num seqüestro cujo desfecho ninguém poderia prever, Nayara teve um papel central na negociação. Ajudou a libertar os primeiros reféns e diz que não queria voltar para o cativeiro – a decisão mais questionada de toda a ação policial. Mas afirma ter decidido retornar por acreditar que salvaria a vida da amiga. “O depoimento da Nayara foi espontâneo, claro, cristalino”, diz o promotor Folgado. “Ela só chorou no final, quando na cronologia chegamos perto da morte de Eloá.” Na quinta-feira, Nayara foi levada para a casa de um parente no litoral paulista. A família quis afastá-la do assédio da imprensa e das lembranças do crime.

Publicado por Amazonas Em Destaque

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